(Source: laninadelmaiz)
(Source: laninadelmaiz)
Levantar-me seria um castigo. Estou perdida..
Não estas aqui. Desapareces-te. Talvez voltes…
Sabemos que não vais voltar… Nunca mais serei a mesma. Se não estiveres aqui, não poderei ver, não poderei ouvir. Nunca poderei ganhar o jogo sem ti. Simplesmente irei respirar por obrigação. Sem escalar, sem correr, sem voar, sem sonhar, sem lutar…
Não quero estar por minha conta… Isso seria admitir que estou sozinha. Seria desistir de tudo o que foi conquistado até então. Não posso lutar sem ti…
Rumo a meia-noite a chuva cessou e as nuvens se afastaram, de modo ao céu ficar disperso e mais uma vez com as incríveis lâmpadas de estrelas, iluminando a besta a margem da lagoa.
Então a brisa também morreu e não havia ruído, salvo o gotejar e a cócegas de água que correu para fora das fissuras e derramou para o chão, folha por folha, para a terra áspera da vila. Silenciosa e sombria vila. Cheia de segredos e maldições mantinha-se assim morta. Sem uma alma realmente viva. Quem pisar este chão considere-se morto. No fim.
O ar estava frio, húmido e carregado. Agora de madrugada ainda permanece o mesmo som da água, o mesmo cheiro de relva fresca e a mesma sensação de realização. Os primeiros raios de Sol vão transformando a longa e escura noite em mais um translúcido e curto dia de Inverno.
A água reflectia o céu claro e toda a imensidão da floresta que rodeia o pântano negro, negro por todas as almas presas debaixo de água que nunca conseguiram fugir das garras do pânico.
No entanto a besta continua encolhida a margem da lagoa, magra e pálida, sem mover-se. Pestanejando quando um fantasma atravessava de passagem pelo bosque.
Diante desta, pestaneja ao meu encontro, mostrando que eu já não era ninguém. Só mais um fantasma que assombrava a pobre vila. A besta dormiu assim em paz por saber que tinha mais uma alma. A minha.
Há momentos em que temos que parar. Distanciarmo-nos.
Deixar as rotinas, as roupas, os cliches, as pessoas a um lado e começar a pensarmos em nos mesmos. Pegar na mala de mão e partir. Partir para um sítio qualquer.
Parar de deixar pegadas no mesmo chão de sempre, deixar de respirar o mesmo ar de todos os dias, trocar a cama por um bom saco-cama no chão, largar a comida gourmet e passar à comida enlatada.
É preciso pedir um tempo a tudo e todos. Um tempo para nós.
Limpar a cabeça de todas as distrações e reconhecer o verdadeiro objectivo.
Quando for a hora e regressar a casa, nunca esqueças que a felicidade esta nas pequenas coisas, em cada descoberta que faças sobre ti mesmo. Nunca esqueças que a felicidade és tu.
Boa sorte.
Desde pequena que acho piada as viagens de Verão. Algumas longas outras curtas. No fim chegamos a conclusão que são sempre demasiado curtas.
A viagem demasiado comprida e o tempo demasiado rápido, porém todos sabemos que ao acabarem as férias seremos outras pessoas. Mais vivas, com vontade de viver realmente, como sempre deveríamos viver.
Há cheiros que não se esquecem. Há cheiros que nos levam de volta a casa.
Toda a minha roupa esta encharcada e os caracóis do meu cabelo começaram a surgir.
O ar continua quente, abafado. Continua a chover e o tempo parece parado.
Cheira a Verão. Cheira a nostalgia.
Chegou o momento em que o coração só bate por bater. A forma como uma pessoa tira a esperança a outra é demasiado assustadora para pensa-lo se quer. Chegou o momento em que é tempo para dizer: Chega!
Agora, fecha os olhos e tenta dormir.
Peguei na folha desdobrada que estava no velho chão de madeira ao que chamavamos de lar. Amarelada pelo tempo, recordada pela saudade, todos os dias. Todos os momentos em que a carta e tu pertenceram e agora por partida do destino só a carta permanece e tu já não.
Lá estava ela. Tal como tu a deixas-te.
«Quem me dera que ela estivesse aqui hoje. Todos os dias.»
Senta-te. Senta-te e ouve. Simplesmente ouve.
Mas que vida é a tua? O que pretendes com essa atitude? Essa louca atitude cheia de sonhos e coisas impossíveis?
Não! Não te atrevas a responder! Não abras a boca se quer! Um dos teus problemas… Não sabes ouvir. Nunca soubeste. Começas a disparatar a torto e a direito. Mas hoje não! Hoje vais ouvir!
Chega de tal vida. Basta de histórias. De contos e ditos. De fantasias inventadas com efeitos irrealistas. Basta!
Mas o que queres afinal? Finais felizes? Príncipes encantos nos seus cavalos brancos? Deixa essa vida. Esquece a ficção e vive na realidade. Deixa os seres imaginários e todos os lugares criados por ti e por mais ninguém fora da tu vida. Fora da tua indispensável sanidade.
Abandona essa vida. O que pensas que vai acontecer depois de isto? Achas que alcanças a felicidade? Acreditas que vais sobreviver como todos os outros? Pensas que sairás imune de toda esta loucura?
Não! Cala-te! Nem penses em levantar-me a voz!
Claro que já fui como tu. Era isso que querias ouvir, certo? Aqui o tens! Fui pior que tu. A minha única inspiração era a fantasia. O desconhecido. Tudo o que estava para além do sujo e aborrecido chão que eu pisava. Achas que quero ser quem estou a ser? A vilã da história?
Não! Ninguém quer! Não acredito em nenhuma das palavras que disse. Dize-las, é contradizer toda a minha vida. Mas quem haveria de te as dizer, se não eu? A prova viva do que acontece a pessoas como tu. Como eu. Como nós.
Mas no fim, eu não deveria falar sobre isto! Quem disse que eu já não viva assim? Louca. Sempre com a esperança de pegar voo e conseguir ser quem sonho. Quem eternamente imaginei. Quem teve a ousadia de acreditar que eu tinha mudado? Que era diferente de tudo aquilo que eu repetidamente quis ser? Mas afinal que alma descomunal e insensível disse que eu não era feliz? Quem teve o atrevimento de pronunciar que eu não sou exactamente o que deveria ser? Que seres cobiçosos conseguiram fazer-me pensar e crer que eu estava a viver a minha própria vida na irracionalidade? Estúpidas! Pessoas estúpidas terão insinuado isso! Figuras sem vida! Seres que crêem que tal vida é incorrecta, impossível, imprudente e insensata, esses, esses são os verdadeiros monstros. Serão sempre a nossa assombração. Para pessoas como eu. Como tu. Como nós.
Não! Pára! Abdica de tal vida! Deixa-a!
No final de contas, quem quer ser como eu? Louca. Velha. Sozinha. Cheia de sonhos irrealizáveis, imprudentes. Que criatura quer viver como eu?
Uma criança pressa no corpo de uma pele enrugada, flácida e desgastada pelo tempo.
Não! Ninguém tem tal audácia, tal bravura! Só os loucos! Os verdadeiros loucos, que levam a sua louquice para debaixo da terra. Para o outro Mundo, e nesse continuam a ser loucos, tanto ou mais do que já eram.
Os loucos nunca deixarão de ser loucos. Tu nunca deixaras de ser tu. E eu, eu nunca deixarei de ser exagerada, criança, insensata, louca.
— Engenheiros do Hawaii (via socoolbut)
(Source: tuneldotempo, via serpoesia)
Nunca se sentira tão pressa como naquele dia. O seu olhar era constrangedor e aflito. Via-se no seu comportamento que não queria estar naquela sala. Ninguém queria estar ali pelos motivos que eram desta vez.
O nevoeiro entrava pela janela, e nem as luvas e os casacos faziam aquele frio de madrugada parecer só mais um. Toda a gente desejava o Sol para combater o frio e sobretudo para que aquele momento fúnebre fosse ligeiramente mais vivo.
O telefone tocara as duas da manhã em minha casa. Nunca esquecerei a voz tremida da tua mãe do outro lado do telefone. Nunca me esquecera daquela noite, madrugada e tudo o que veio depois. Dias e noites, semanas e meses.
Posso dizer, infelizmente, ano após ano, a dor era a mesma, alguns dias menos, uns dias mais. Mas a dor permanecia como no primeiro dia. Ambas sabíamos que sempre estaria.
Esquecêramos todas as frases feitas em relação à dor, ao tempo e à morte.
Ninguém o poderia substituir. Ninguém em momento algum, antes ou depois, pensou nisso. Ele já não era só um filho, só um irmão. Ele já não era só mais um pessoa. Ele era a pessoa. Ele é e sempre será a pessoa pela qual ainda sobrevivemos todos os dias.
Os três éramos irmãos. Tu de sangue, eu de coração, ele de ambos.
Nunca fôramos diferentes uns para os outros. Nunca nos tratamos de diferente maneira, antes ou depois, do que sucedera.
Ele era tudo para nós, para ti e para mim, como nós éramos tudo para ele, tu e eu. Ele e nós. Nós e ele. Nós os três.
Haverá sempre perguntas sem respostas, e haverá sempre coisas que nunca saberemos.
Lembro-me de esconder as minhas luvas verdes vivas, que ele me oferecerá na semana anterior, nos bolsos do meu casaco preto, quando olhas-te para elas e seguidamente para mim. Desviei o olhar para a janela e tu colocas-te os óculos escuros e olhas-te para a janela também. Nada foi dito.
Toda a sala de espera estava calada. Jamais tivera visto a tua mãe assim, na verdade não tinha visto nenhum de vós assim. Não era normal da vossa família estarem como naquelas longas semanas.
O meu nome já não era Dora ou Dorinha, agora é Pandora com voz rouca e magoada, lastimável. Ambos os nomes foram dados por ele. Dize-los seria usar as suas criações sem autorização.
O tic-tac do relógio da cafetaria ouvia-se ainda mais alto que os meus próprios pensamentos.
Tirei as luvas verdes e deixei-as em cima da mesa, com o seu típico tom pastel de hospital, junto com o meu café de máquina rápida.
Fechei os olhos, cruzei as pernas e apertei os lábios para não chorar.
Os passos pesados do teu pai apareceram atrás de mim demasiado rápido. Apresei-me a limpar as lágrimas e sentou-se a minha frente com os seu usual e leve sorriso no rosto.
Pegou nas minha luvas e a sua voz passou de rouca a suave e calorosa e de sofrida a orgulhosa:
«Ele não se teria importado Dorinha.»
Não falava só das luvas. Falava sobretudo das noites em que não apareci no hospital por medo de ser a última, por medo de o perder. Falava de todas as chamadas de cabines telefónicas sem jeito que fiz para justificar a minha falha quando todos sabiam o que realmente era. Falava das minhas inúmeras fotografias que prometera mostra e nunca mostrei. Falava dos imensos textos que me vira escrever para ele e nunca tive coragem de lhe ler. Falava de todas as lágrimas que só caíram fora do quarto e não junto dele. Falava principalmente para que eu pudesse chorar descansada, sem medo de estar a admitir que o tinha perdido, sem medo de estar a admitir a coisa que mais me magoava durante aquele tempo todo e para que eu pudesse sentir as saudades que se foram criando após meses e meses. Falava porque sabia que eu sempre fora da família. Falava em nome da família. Falava em seu próprio nome e sobretudo falava em nome do André.
No fim esqueci tudo. Esqueci o teu pai, esqueci o nós, esqueci a minha coragem, o meu orgulho, o meu medo, menos o André. E chorei. Chorei porque ele já não voltava.
Tinha partido com a certeza que eu o amava como meu irmão que era. Tinha partido como um orgulho. Como um lutador.